Sou Sebastião
da Rádia, nascido em Quixaba no interior da Paraíba, tenho 17 filho e um
chamego: a comunicação. Não tenho estudo, parei na tabuada, mas de comunicação
a própria vida me ensinou e também umas leitura que fiz sobre um troço chamado
Estudos Culturais, que começa mais ou menos assim:
O povo lá das
banda do Norte, meio metido à besta, pensava que importante mesmo era o rádio,
a TV; como se esse monte de caixote com som e imagem pudesse fazer milagre. Aí,
veio um povo inteligente da Escola de Birga, que tinha uns nome difíci – Rei
Monde Uila, Estute Rou e Tompissom – e iniciaram uma prosa diferente, dizendo
assim: o receptor também participa das construção cultural e quem tinha no
entendimento que nóis era besta, tudo com a caixola igual, se enganou-se, nóis
pensa diferente, porque a recepção acontece mesmo no dia-a-dia, da hora que o
galo canta até a hora que a vela alumia.
Seu Barbero,
cumpadre nosso aqui da parte latina das América, ouviu falar dessa milonga e
mergulhou nesse açude de conhecimento. O cabra estudou muito e garantiu: o
importante mesmo era o povo, as conversa jogada fora no alpendre ao pôr-do-sol,
os dedo de prosa na hora do almoço, até a conversa fiada do vendedor de pássaro
na feira. Onde fosse, no trabalho, dentro de casa, no meio da rua, nas
brincadeira de criança, nas festa da padroeira,. Ele não dava nem cabimento pros
miolo de pote que os meios de comunicação pronunciava.
Mas tá! O
leriado era bonito, só que, por meado das década de 90, Seu Barbero mudou um
pouco as ideia. Parece que andou assistindo as história de polícia pegando
bandido, de doutor curando doença impossível que os estrangeiro das banda de
cima mandava passar na televisão, e se apercebeu que esse negócio mexia com o
miolo do povo daqui. É tanto que aquelas coisa que era pecado grave, que nem
uma carreira de Ave Maria perdoava, o povo começaro a aceitar – separação de
casal ajuntado e até homem baitola parecia normal. Nem os governante
aguentaram, se renderam, meu cumpadre, e decidiu separar: pecado é pecado,
governo é governo.
Foi assim que
Seu Barbero chegou à decisão: os meios era forte quinem ovo de pata e touro
brabo na vida do nosso povo. Sabe por quê? Porque eles tinha a capacidade de espiar
longe, além dos nosso costume. Aí pronto, com a chegada do computador, Cumpadre
Barbero pensou numa história de “mediações comunicativas da cultura”, que juntava
num balaio só a tecnicidade, institucionalidade, sociabilidade e ritualidade-
esse palavreado bonito no fim das conta queria dizer que o comunicativo tá
tomando conta de tudo. Porque a vida na ficção parece ser mais real. Do mesmo
jeitinho que é na janela da fofoqueira, a vida minha e a dos outro passa na TV,
me sento na cadeira de balanço e assisto até dar a hora de dormir, porque no
outro dia tem que ter assunto pra conversa no mercado com Seu Dijaí.
A prosa mudou
mesmo. Esse povo estudado reconheceu que a comunicação mediava todos os lados,
empestava tudo, todas as formas de vida cultural e social do nosso povo. Seu Barbero
deve ter passado as noite de sono à luz do lampião com os olho abuticado, matutando,
buscando uma luz mais forte que refletisse melhor o que realmente se assucedia
nos meios de comunicação. Não era só contar carneirinho e criar uma teoria:
todo carneiro que pulasse a cerca tinha que chegar do outro lado sem queda, sem
ficar preso, sem falha. Esse era o leriado do povo do Norte, que estudava pra
que a comunicação fosse perfeita como uma tabuada. Seu Barbero já sabia que essa
conta não dava certo, o negócio era mais enrolado, era um tal de ecossistema
comunicativo e não só carneiro.
Mas quer
saber? O mais bonito dessa história toda é que nóis tem voz, num sabe? Aqui da
minha rádio comunitária, vou falando dos acontecido da cidade e dos sítio
vizinho. O nome da rádio é Pau de Fuxico, porque o povo aproveita pra mandar
recado: Seu Fulano, sua mulher manda avisar que sua fia acaba de dar à luz um
bruguelinho de 2 quilo e meio, o menino tá com saúde e sua fia passa bem.
No final dessa
prosa, a gente deu fé que a comunicação é nosso cotidiano cagado e cuspido. É um forró pé de serra, fogueira de São João, milho e
balão, um repentista que canta, um
cabritinho que berra, zoada no mei da feira, uma ciranda, pula corda e um toca,
um balai de alpercata, porca gorda no chiqueiro, um vaqueiro aboiador. É
a gente por dentro e por fora, merminho, sem tirar nem pôr. É o galo que canta,
a flor de mandacaru que brota, a chuva que não vem e o sol que não vai, a
poeira comendo e a sanfona tocando, é uma fala arrastada, uma mesa farta de
buchada e cuscuz que Quinzinha preparou. É nóis assim purim na TV, às vezes pra
vender o que a gente nunca comprou.
Dicionário nordestino
Troço:
uma coisa/ Metido à besta: arrogante/ Escola de Birga: Escola de Birmingham/
Rei Monde Uila: Raymond Williams/ Estute Rou: Stuart Hall/ Tompissom: Thompson/
Prosa: conversa/ Caixola: cabeça, mente/ Alumia: ilumina/ Milonga: conversa
inútil/ Açude: represa/ Cabra: homem/ Cabimento: importância/ Miolo de pote:
bobagens/ Leriado: conversa/ Empestar: tomar conta/ Abuticado: bem abertos/
Matutar: pensar/ Assuceder: acontecer/ Bruguelinho: menininho/ Dar fé:
perceber/ Zoada: barulho/ Toca: pega-pega/ Alpercata: chinelo/ Purim: purinho.
Referências
ESTUDOS
CULTURAIS. Disponível em: www.infoescola.com/sociologia/estudos-culturais/
MARTÍN-BARBERO,
Jesús. Globalização comunicacional e transformação cultural. In: MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação: mídia,
mundialização cultural e poder.
MATTELART,
Armand e Michele. História das teorias
da comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2000.
Produzido
por: Ana Flávia Camboim, Giovana Gulin e Erika Silva







